segunda-feira, 29 de junho de 2009

DECLARAÇÃO DO PROFESSOR FELIPE PENA (UFF)

Felipe Pena (professor jornalismo UFF)


O que mais me ruborizou foi a reação com relação a comparação que o Gilmar Mendes fez entre jornalistas e cozinheiros, isso gera um grande preconceito da gente jornalista com os cozinheiros, por que somos melhores que os cozinheiros? Temos mais erudição? A gente é melhor que quem faz gastronomia? Quando na verdade o jornalismo é sim de fato uma arte, uma arte como é a gastronomia, e você vai ser um melhor jornalista, dependendo do teu manejo das panelas e da forma como você usa o seu tempero, porque jornalismo não e ciência, jornalismo é arte.

Nesse sentido, não é o diploma de jornalismo que garante um bom profissional de jornalismo, o que garante é esse manejo das panelas, isso você pode aprender tanto na faculdade de jornalismo, como numa outra faculdade, ou como na vida.

O que eu acho é que ainda assim a faculdade de jornalismo continuará a ser o melhor provedor de bons profissionais da imprensa, mas não o único provedor, e por isso não se pode exigir diploma de jornalismo como único requisito pra exercer a profissão. Eu defendo o diploma de jornalismo mas não a obrigatoriedade do diploma pra exercer a profissão porque o jornalismo, na minha opinião, não é ciência é arte. Você exerce o jornalismo como você faz um risoto, você precisa saber manejar as panelas e usar o tempero certo.

Isso você pode aprender na faculdade de jornalismo desde que você tenha professores que saibam manejar as panelas e saibam um pouquinho do tempero, como pode aprender na vida ou em outra faculdade.

Por isso você não precisa do diploma de jornalismo especificamente, mas sim de qualquer outra formação que te possibilite exercer essa profissão.

Então as faculdades de jornalismo, na minha opinião, ainda vão continuar como principal provedor de bons profissionais para as redações, para os veículos de comunicação, mas não como único provedor, já que a profissão de jornalismo por ser uma profissão ligada a arte e não a ciência, pode ser aprendida na vida, pode ser aprendida em outra faculdade.

Acho que o bom jornalista é aquele que maneja bem as panelas e que usa bem os temperos, esse bom jornalista é o sujeito que além da técnica que não é o único pré-requisito, sabe manejar sua arte de uma forma que o público que está em casa reconheça.

É o público que vai julgar se você foi boa ou não ao fazer uma matéria, então não é empresa de comunicação, não é o jornalista, é o público que está em casa que diz quem você é, é ele que vai dizer se você é um bom profissional ou um mal profissional e pra isso você vai ter que ter condições técnicas sim, mas também condições éticas, condições morais, condições culturais, condições de julgar o que você está fazendo e condições de relacionar teu conhecimento a esta prática que está exercendo agora.

O jornalista é um especialista em generalidades, depois, ele tenta se especializar em alguma coisa, ele vai pra uma editoria de economia, pra uma editoria de cultura.

Pessoas que já são especializadas em economia, um economista por exemplo, virá para editoria de economia e terá condições de exercer melhor a profissão até do que a gente, eu, você, desde que ele aprenda o estado da arte, não a técnica especificamente, mas o estado da arte, que inclui a técnica, ou seja, que ele aprenda a se comunicar com a câmera, a escrever uma boa matéria, a se auto traduzir, que é difícil traduzir um economista, então ele tem que traduzir a economia para a câmera, para o texto, mas conhecimento econômico certamente ele tem mais do que eu, que não estudei economia, então por que que eu vou vetar a participação desse economista num veículo de comunicação? Não faz sentido.

Acho que a decisão do supremo tem consequências, a primeira delas é que haverá essa inversão. Os profissionais de outras áreas vão procurar o jornalismo, profissionais que se interessam por jornalismo e a partir daí, cursos de pós-graduação latu sensu em jornalismo vão proliferar, porque vão procurar uma formação. Mestrado profissionalizante também vai proliferar.E o jornalismo fica melhor, tendo essas pessoas se interessando pelo estado da arte desde que elas consigam de fato aprender essa arte que é o jornalismo, porque a gente vai ter um maior número de especialistas.

Quando falar numa decisão do supremo por exemplo, se tiver advogados na redação vão poder fundamentar melhor, desde que ele saiba traduzir isso pra linguagem que o público consegue consumir, que o publico consegue articular.

A aluna que diz que vai rasgar o diploma porque perdeu quatro anos da vida dela, está errada, porque esses quatro anos vão fazer dela uma candidata muito melhor a um posto na redação do que outro que não tem o diploma, porque ela se especializou naquilo, então ela não perdeu seu tempo, ela se instrumentalizou pra concorrer com esse advogado. A única coisa que ela perdeu foi o lado corporativo: agora vai ter que concorrer com o advogado que está passando aqui atrás nessa universidade, com economista, não vai dar mais pra ter um corporativismo de classe, mas ainda assim, essa aluna vai ser a mais bem preparada pra exercer um cargo na redação.

Eeu não acredito que vai cair a qualidade do jornalismo, ainda acho que esse sentimento é um sentimento corporativo do jornalistas, acho o contrário, acho que vai melhorar a qualidade, que vai ter mais opções, volto a dizer, quem julga essa qualidade não sou eu, não é o dono da empresa, é quem está ali (aponta a câmera) do outro lado da câmera olhando pra gente agora

Essa pessoa que vai dizer se o que a gente está fazendo e bom ou é ruim, se a gente ta conseguindo transmitir a informação, se a gente ta conseguindo se comunicar. Então, no momento em que as empresas de comunicação contratarem outros profissionais que não tenham diploma de jornalismo, tenham diplomas em letras, em direito, em economia e esses profissionais consigam se comunicar com o público, consigam dar o recado, eles vão ser bem julgados, se não conseguirem, eles vão ser mal julgados.

E aí eles vão cair naturalmente porque o jornalismo se sustenta desde que a credibilidade seja vista por quem ta ali daquele lado da câmera e não pela gente.

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